O que você faria se pudesse viver 200 anos? (processando…)
Intrigante pergunta diria eu, mas nada pensei a respeito. Deparei-me com “a intrigante” numa dessas manhãs sonolentas de segunda-feira, numa aula igualmente lenta. A princípio não me abalei, vai ver pelo ceticismo, vai ver pela falta de idéias às 7:00 da manhã.
As respostas foram das mais variadas, falando desde futuro individual até futuro coletivo, porém limitadas ao umbigo de cada um dos presentes para tristeza da professora, que a cada semestre espera uma resposta tão criativa quanto “criaria uma tartaruga”.
A aula transcorreu sem mais emoções e agora sim resolvi pensar, mas não mais nos 200 anos e sim na falta de criatividade da turma, pontuada pela professora, que reflete na sociedade atual. Mas existe um segmento da produção criativa nacional, que é até premiado aqui e fora do país, a publicidade. Sim, isso é bem verdade, mas ainda assim vejo limitação, pelo menos em certos segmentos de propagandas. Por exemplo, anúncios de cerveja são muito parecidas, a maioria tem gente jovem e bonita ou lindas mulheres apenas como objeto ilustrativo, rapazes fortes e bonitos, textos insinuativos e ambíguos. O que varia é apenas a marca do anunciante.
O déficit em criatividade está na nova formação da sociedade. Não querendo ser pragmática, mas já sendo, esse é um assunto que carece de atenção. O bombardeio de informação e a facilidade na realização de tarefas, por exemplo, deixou o indivíduo moderno mais “sedentário” do que já era. Isso é extremamente visível e bem aceito afinal quem não gosta do fácil? O reflexo disso é um mar de mesmices nas atividades que necessitam de criatividade para se sobressaírem! Contraditório não?!
Pra finalizar esse ciclo vicioso cito mais dois aspectos; o quão comum está se tornando essa falta e como isso tem passado quase despercebido pelo senso crítico comum das pessoas. Outro aspecto seria a crescente falta de perspectiva dos jovens de 1990 inúmeras vezes pontuadas por diferentes analistas e especialistas. Nas décadas de 60 e 70, base de nossa atual identidade social, a efervescência cultural era de altíssimo grau e nível, porque havia pelo o que brigar e mudar e de certa forma essas inquietações sociais estimulam a produção criativa, fato mais do que provado e aprovado pelas “grandes cabeças pensantes” daquela época. Essa comparação tão clichê entre décadas é mais do que pertinente quando o assunto é produção cultural, comunicação e artes, mas apesar de tanto bater na mesma tecla, hoje o que falta é amor à camisa, vontade de mudar e produzir mudanças, afinal, não há mais o que mudar o que tinha para ser mudado já foi mudado, mas será que não mais nada a ser mudado?
Manoel Castells sociólogo e professor de comunicação espanhol em seu livro “A Era da Informação Volume 3”, destrincha a atual sociedade moderna em sua composição quanto indivíduo e mão-de-obra que exerce. Castells mostra que o tipo de mão-de-obra também é fator determinante do lugar do indivíduo na sociedade. A mão-de-obra dividi-se em autoprogramável, que é o indivíduo que tem acesso à educação e, portanto é mais bem qualificado e adapta-se facilmente a qualquer tipo de função. A mão-de-obra genérica é o oposto da autoprogramável, com o agravante de ser facilmente substituível. Após definir as categorias de trabalhadores, os próximos a serem desdobrados são os níveis de capitalistas. 1º nível pertence aos detentores do “poder”, acionista e grupos de empresários. 2º nível os administradores, que são os que realmente controlam os bens de capital e procuram sempre maximizá-los. 3º e último nível é mercado financeiro global, que reuni todas as fontes de capital convergindo para maior lucratividade.
Apenas o 2º nível aqui interessa, sintetiza e inclui a parcela “humana” do mercado e os demais níveis. Os Adms fazem parte dos autoprogramáveis e estão em ascensão, devido à sua inegável qualificação, tino para negócios, raciocínio rápido e caceteiro.
Essa ascensão pode explicar, uma parte pelo menos, desta crise criativa, uma vez que tudo que exige gestão precisa de administradores e esses, por sua vez, desempenham seu trabalho excessivamente bem. Contudo, quando a questão é cultura o excesso no tino para negócios pode melar o um melodioso trabalho artístico. Em alguns casos o conteúdo chega a ser diretamente comprometido com tanto executivo nos “bastidores”, por exemplo, o cinema. Quais filmes têm mais visibilidade no mercado? Os americanos, que é onde se concentra um dos maiores “conglomerado” de produção audiovisual do mundo. Por conta disso as atuais produções cinematográficas nada, ou muito pouco, têm de realmente novo a mostrar. As películas são na maioria dos casos grandes shows pirotécnicos, refilmagens ou baseados em livros, quadrinhos e séries.
Depois de todo esse passeio pela minha livre associação de idéias frustrei-me em concluir que tudo em excesso é sobra e de sobra ninguém gosta. Sei que não há nada de novo nisso, mas me garanto que não paro por aqui…
maio 18, 2009
Categorias: Das Observações . . Autor: mariferreira . Comentários: Deixe um comentário